“O meu livro e nós” - Processo de trabalho


O nível de complexidade para a criação de uma banda desenhada é suficientemente grande para que deva haver a preocupação por parte do autor de desenvolver um processo de trabalho que garanta a aceleração do projecto, evitando avanços e recuos desnecessários.
Infelizmente não existem formulas mágicas que garantam o sucesso na criação e adaptação de uma história para a BD mas poderei partilhar o pouco que conheço sobre o assunto, aproveitando desta forma para me organizar e aprender.

Aqui vou tornar públicos alguns dos meus raciocínios sobre o assunto, apresentando de forma integral a adaptação da segunda versão do projecto “O meu livro e nós” do qual sou autor. Esta nova versão do projecto está mais simplificada e orientada para um target infanto-juvenil apesar de manter todos os ingredientes principais da versão original.

Durante a adaptação irão ser abordados assuntos que sejam pertinentes ao desenvolvimento do projecto, desde a escrita do Guião até à sua adaptação à BD, passando pelo Design de Personagens, (indumentária, expressão, poses de acção, etc.), Composição, Processo de Trabalho, Estratégia, etc..

Para facilitar a “navegação”, cada post será devidamente identificado com o tema de que fala, como por exemplo: Guião, Narrativa, Adaptação, Design de Personagens, etc..

Tendo em consideração que este é um assunto complexo que faz parte de um Work in Progress, é possível que hajam avanços e recuos nos conteúdos que irei disponibilizando e haverão de certeza, correcções em posts já publicados.

Imagem: Storyboard “O Livro” (1ª versão) regista alguns dos pontos chave da narrativa. 

A Simbiose Autor/Leitor na BD


A Banda Desenhada (BD) é uma forma de comunicação complexa em constante evolução e que partilha muitos códigos visuais com o cinema. A grande diferença entre o cinema e a BD é a passagem rápida dos fotogramas que dão ilusão de movimento e que define as acções sem a necessidade da participação da audiência. No caso da BD isso não acontece pois a comunicação é feita através de uma sequência de imagens não contínuas que exige a intervenção quase constante do leitor, que é convidado a preencher “os vazios” entre vinhetas (Gutter) para "ver" o se passa para lá da imagem. Scott McCloud na sua obra "Understanding Comics" diz que o Gutter é o pequeno espaço onde a imaginação transforma duas imagens numa única ideia. A interpretação daquele pequeno espaço varia de leitor para leitor dependendo da sua experiência de vida. Em conclusão e de forma grosseira podemos dizer que tudo aquilo que não é representado na BD, é imaginado pelo leitor.

O protagonismo que o leitor tem na narrativa obriga a que o autor esteja sempre consciente da sua existência e importância, pois é para ele que deve comunicar de forma simples e clara recorrendo ao desenho e ao texto (quando existe).
Poder-se-á dizer que deve haver um equilíbrio entre o que deve ser narrado (desenhado e/ou escrito) e o que deve ser interpretado. Talvez este seja o maior desfio do autor: o de fornecer uma sequência de imagens que permitam que o leitor interprete correctamente cada acção da narrativa.

O autor tem também a responsabilidade de conduzir a audiência na aventura, definindo a orientação, o ritmo e o timming da leitura recorrendo a técnicas narrativas específicas da BD ou transversais a outros médium visuais.
Mas atenção! O leitor deverá ser conduzido de forma discreta para que possa concentrar-se na leitura tirando dela o maior partido.

Imagem: As sete primeiras pranchas da 1.ª versão do projecto o “O Livro”.

Storyboard vs Prancha Final - 02



Comparando o storyboard (à esquerda) com a prancha final (à direita) é possível perceber que o contraste de luz entre a primeira e a segunda vinheta não foi devidamente representado.
De acordo o Guião, "O tempo está chuvoso e os relâmpagos rasgam o céu...": a acção pede uma representação da iluminação interior com variações bruscas e sombras recortadas.
No storyboard a diferença de iluminação assinalada entre a primeira e segunda vinheta tem a intenção de sugerir a queda de um raio no exterior.
Na prancha final (à direita) esse facto não foi considerado pois isso só será feito durante a arte-final (digitalmente). Também é possível verificar que a representação da Edite na última vinheta da prancha final não está consistente com as anteriores. Isto acontece porque a personagem ainda não está definida e aproveitam-se estas alturas para testar "novos visuais" em acção.

Storyboard vs Prancha Final - 01



Depois do storyboard finalizado e aprovado é altura de melhorar o desenho e colocar o texto no espaço reservado. Na altura em que o storyboard foi desenvolvido ainda não tinha sido decidida uma localização para a acção da primeira vinheta, por essa razão o único cuidado que houve no desenho foi definir a perspectiva e o enquadramento. A igreja desenhada no storyboard representa por isso, um edificio genérico sendo meramente indicativa.  Quanto às restantes vinhetas tiveram ligeiras alterações.

Para evitar repaginações, está a ser estudada a possibilidade da publicação em vários formatos diferentes em simultâneo (um dos formatos a vermelho). Este conceito iria implicar a concentração do texto no interior da linha vermelha e já condiciona a representação de todo conteúdo das vinhetas.
Esta estratégia deverá ser descartada devido à importância que o texto tem na narrativa, pois apesar de transmitir os conteúdos, determina o ritmo da acção (em conjunto com a imagem) e a orientação da leitura.
Na BD, o texto é demasiado importante para ser subordinado a interesses exteriores à narrativa, por mais vantajoso que isso possa parecer.